Resenha – Wolfenstein: The New Order

Lançada no início da década de 90, a franquia Wolfenstein é uma das mais clássicas do gênero tiro em primeira pessoa. Sua mais recente versão foi desenvolvida pela MachineGames, fundada em 2009 por ex-membros da Starbreeze Studios, criadora de The Chronicles of Riddick: Escape from Butcher Bay (2004) e The Darkness (2007). Depois de um título que deixou a desejar na geração passada, Wolfenstein: The New Order faz uso da vasta experiência da franquia e chega forte para a nova geração de consoles.

Num contexto histórico alternativo da Segunda Guerra Mundial, o jogador assume o papel do capitão William “B.J.” Blazkowicz em um ataque dos Aliados ao castelo do general Wilhelm Strasse “Deathshead”, a encarnação do mal responsável pela máquina de guerra alemã. Esta fase de abertura, que serve homenagem ao clássico castelo da série, se conclui com um fracasso da invasão diante da surpreendente superioridade tecnológica inimiga e deixa o nosso herói inválido. Resgatado e tratado num asilo, o protagonista desperta depois de 14 anos em estado vegetativo para encarar um mundo completamente dominado pela força inimiga. Tomando conhecimento de que a América tornou-se um deserto nuclear, o personagem se transforma em uma máquina de matar nazistas.

O enredo é muito bem elaborado e aproveita cada elemento da narrativa para adaptar o jogador ao mundo em que os Aliados perderam a maior guerra da humanidade. É com um tom sério e brutal que o jogo apresenta essa realidade alternativa. Através de recortes de jornais, registros de áudio e conversas com outros personagens, o jogador vai descobrindo junto de Blazkowicz o quão ruim está a situação mundial. Incrivelmente, o jogo sabe quando se levar a sério e quando valorizar a comédia, tornando a experiência riquíssima. Com ironias históricas constantes, os desenvolvedores tiveram o cuidado de adaptar grandes referências da cultura pop da época, como Beatles e Jimi Hendrix, para a realidade nazista da década de 60, além de easter eggs de outros games como BioShock, Quake e Fallout 3.

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Apostando nas mecânicas clássicas dos jogos de tiro em primeira pessoa, o novo Wolfenstein é extremamente bem sucedido e mesmo o jogador cansado do já muito batido tema de Segunda Guerra Mundial não deve se assustar, pois graças ao avançado armamento bélico nazista, instrumentos interessantes para matar não faltam e a jogabilidade é realmente merece atenção. O que encontramos aqui inclui ação rápida, explosões e muita adrenalina, com uma porção de furtividade na medida certa e alguns trechos de ação contextual e tensão bem construída. Algumas boas ideias do jogo são vistas apenas em breves momentos, mas se tornam marcantes, como a jogabilidade vertical ao escalar o castelo com uma corda atirando nos inimigos que aparecem nas janelas. Mesmo sendo um jogo de tiro, é possível avançar em muitas partes sem gastar uma bala sequer, apenas apunhalando sorrateiramente inimigos pelas costas ou arremessando facas, que podem ser readquiridas após o lançamento fatal.

Coletar items é uma tarefa constante neste Wolfenstein e ela exige o apertar de um botão. Isso significa que você passará boa parte do tempo apertando o mesmo botão para coletar armas, munição, pedaços de armadura e etc. Sua vida é medida por um numeral e se recupera até certo limite quando não recebe dano, devendo achar comida ou kits médicos para se recuperar completamente. Encontrar cada peça de armadura pelo cenário é fundamental para prolongar sua vida e cada colete ou capacete faz diferença. Toda a campanha é recheada de coletáveis e muitos segredos, que podem ser vistos entre os Extras do mundo principal. Para quem se incomoda com grandes quantidades de items e exploração, pode ser cansativo, mas para os adeptos do sistema de loot é quase o paraíso.

Sobre os inimigos, eles não são exatamente geniais, mas dependendo da dificuldade escolhida a inteligência artificial dará algum trabalho. Morrer neste game não é difícil, principalmente se você não estiver bem equipado. Correr também é importante nos momentos mais intensos, sendo possível deslizar e atirar ao mesmo tempo. Para se proteger de fogo inimigo, temos um eficiente sistema de cobertura, que te permite atirar até por baixo de uma porta. Vale ressaltar que o cenário é destrutível e a mesma pilastra não aguentará dano ilimitado, entretanto o mesmo conta para sua vantagem. Para matar nazistas, o jogo te dá acesso à uma roda de armas que pode ser acionada a qualquer momento. Caso precise de fogo extra, é possível ainda portar simultaneamente uma arma em cada mão, independente de tamanho, como por exemplo dois rifles de longo alcance, o que coloca diversão na frente de realismo.

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Além das armas convencionais e granadas, o arsenal disponível inclui uma arma de laser que vai sendo desenvolvida conforme seu avanço e torna-se cada vez mais diferenciada, servindo para cortar cercas, caixas ou para explodir inimigos. Conforme o jogador executa determinadas ações, são destravados perks, que são habilidades obtidas de acordo com seu progresso acumulado, divididas entre as categorias “furtivo”, “tático”, “assalto” e “demolição”. Por exemplo, abater dez inimigos usando a pistola com silenciador faz com que você passe a provocar mais dano com esta arma. Esta foi uma maneira interessante que a desenvolvedora encontrou de convidar o jogador a explorar todas as possibilidades do game e ser recompensado de alguma forma por isso.

Tecnicamente, Wolfenstein: The New Order não deixa a desejar, com missões divididas em mapas complexos e imensos, com ambientes variados e diversas opções de acesso. Usando o mesmo motor gráfico de Rage, id Tech 5, os gráficos são satisfatórios e as animações dotadas de grande fluidez, apesar de algumas características ruins serem mantidas, como o carregamento de texturas um pouco prolongado. Outro problema recorrente que se mantém é o fato do jogador não ter como ver os pés do personagem, mesmo olhando para baixo, o que não influi na experiência geral. Durante a campanha, o jogador é levado à cenários como castelos, localidades subaquáticas, grandes pontes, uma versão nazista de Londres e até mesmo uma base na Lua, construída pelos alemães.

Me parece óbvio, mas se faz necessário dizer que este é um jogo com doses de violência acima da média. Mesmo para o padrão atual da indústria, a brutalidade aqui pode incomodar os mais sensíveis, restringindo este título ao público adulto. Não há a menor economia em sangue e corpos são mutilados a cada combate. De frente para o exército nazista, você enfrenta soldados sanguinários, soldados robotizados, cães mecânicos, robôs enormes e coisas do tipo. Em alguns pontos você irá encontrar comandantes nazistas, que se forem alertados irão chamar reforços infinitamente, fazendo com que seja interessante matá-los de forma furtiva, assim como os cães, que estarão dormindo na maioria das vezes. Temos ainda encontros com chefes de fase, alguns bem desafiantes. Acompanhando o ritmo acelerado do jogo, temos uma trilha sonora de peso que cumpre bem seu papel e ajuda na ambientação das fases.

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Curiosamente, não há nenhum modo multiplayer, seja local ou online. Entretanto, cada cópia do jogo acompanha um código que garante acesso ao beta do novo Doom, que segue sem data de lançamento. Esta decisão do estúdio pode parecer estranha em um jogo do gênero, porém mostra a confiança e o valor que deram à experiência para um só jogador, que é sólida e bem executada. Aliás, graças à uma escolha do jogador feita logo no início, são criadas duas linhas temporais, cada uma habilitando opções únicas, requerendo uma segunda partida para disponibilizar todo conteúdo possível. Isto prolonga a vida útil do título, sem falar nos modos secretos, extras e easter eggs para procurar e desfrutar, que incluem tesouros, dossiês de personagens e arquivos variados. Talvez o que mais chame atenção dos saudosistas seja a presença jogável de Wolfenstein 3D (1992) através de um pesadelo de Blazkowicz.

Apresentando uma jogabilidade consolidada e uma ótima campanha composta por dezesseis missões repletas de ação e segredos, este título consegue abordar um evento histórico de forma particular e interessante. Wolfenstein: The New Order prova que a Segunda Guerra Mundial ainda pode ser palco de bons games e é boa pedida para quem gosta de jogos de tiro e universos alternativos.

Ficha Técnica
Título: Wolfenstein: The New Order
Gênero: Tiro em Primeira Pessoa
Desenvolvedora: MachineGames
Distribuidora: Bethesda Softworks
Data de lançamento: 23/05/2014
Plataformas: PC, Xbox 360, Xbox One, PlayStation 3 e PlayStation 4
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