Resenha – Demolidor (1ª Temporada)

Depois de uma longa espera para os fãs do personagem, foi ao ar a primeira temporada completa da série Demolidor no Netflix. O programa, que é o primeiro fruto do acordo entre Marvel e o serviço de streaming, chega para apagar da memória versões anteriores do personagem fora das HQs e mostrar como se faz uma série de herói sem dever para o cinema.

Logo no começo do primeiro episódio já vemos o acidente que tirou a visão de Matt Murdock (Charlie Cox) quando ele tinha 9 anos de idade. Em seguida somos transportados para o presente, quando o personagem abre seu próprio escritório de advocacia ao lado do velho amigo Foggy Nelson (Elden Henson) e tem como primeiro caso jurídico a defesa de Karen Page (Deborah Ann Woll), formando o principal núcleo desenvolvido ao longo da temporada com personagens essenciais para clássica mitologia do herói. O primeiro episódio chega mostrando o tipo de ação que é vista durante toda temporada, com lutas extremamente realistas e bem coreografadas, sem medo de mostrar sangue e outras limitações típicas da TV.

Como esperado, a série se baseia no começo de carreira do Demolidor, tanto como advogado quanto vigilante, mostrando sua relação com personagens icônicos das HQs e construindo a personalidade que tornou o herói famoso. Aqui vemos debates sobre moralidade e justiça, sem esquecer do lado religioso que é inerente ao símbolo do personagem, que em vários momentos da série tem encontros com um padre e discute seus dilemas. Matt Murdock se mostra inteligente e capaz desde o início e Charlie Cox entrega uma atuação completa, no papel de homem cego e vigilante incansável. A inexperiência do protagonista permite ao programa fazer total uso dos seus poderes para criar boas sacadas, incluindo efeitos especiais criativos e ótimas explicações a outros personagens, que no fim servem para introduzir as capacidades do Demolidor aos espectadores que não as conhecem dos quadrinhos.

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Mesmo com maior foco para justiça nas ruas, a série explora Murdock como defensor da lei e dá exemplos de como suas habilidades especiais podem ser úteis no tribunal. A relação profissional e de amizade com Foggy tem direito a flashbacks com os tempos de faculdade e cria momentos cômicos com a cegueira e pequenas sacadas sutis. Karen, apesar de ser introduzida com bastante peso dramático, ajuda no alívio cômico e se mostra uma grande aliada da dupla, protagonizando ótimas cenas próprias que movem parte da trama.

Todos os personagens essenciais para construção da figura do Demolidor estão muito bem representados na trama, incluindo Jack “Batalhador” Murdock (John Patrick Hayden), o pai de Matt, que tem episódio dedicado a contar o final emocionante de sua carreira de boxeador e como ele influenciou o filho a nunca desistir em uma luta. Não importa o quanto apanhe, o vigilante sempre levanta e continua lutando, mesmo que acabe em péssimo estado. Para cuidar de seus ferimentos de batalha temos Claire (Rosario Dawson), uma enfermeira que apoia as ações do Demolidor no bairro e desenvolve uma boa relação com o herói.

Outro personagem que tem presença constante na série é Ben Urich (Vondie Curtis-Hall), famoso repórter que investiga atividades criminosas em NY, figura comum em HQs de outros heróis da cidade, como Homem-Aranha. Interessante notar que esta é uma encarnação veterana do jornalista, que aqui tem décadas de experiência e já emplacou matérias relacionadas aos Vingadores, como vemos em seu escritório. Também veterano, temos o velho mestre Stick (Scott Glenn), que tem papel fundamental no treinamento ninja do protagonista e mesmo no presente protagoniza boas cenas de ação. Este personagem é o principal responsável por motivar Matt a combater o mal do mundo a sua volta e mostra que a visão pode ser interpretada como uma distração para o que realmente importa.

Se passando em uma época onde o personagem ainda é jovem inexperiente, a série respeita e homenageia a roupagem completamente preta vista em Homem Sem Medo, de Frank Miller, HQ que conta a origem definitiva do Demolidor. O tão aguardado uniforme vermelho aparece apenas no último episódio como uma releitura moderna do clássico e é perfeitamente justificado pela trama. Sem amarrar todas as pontas soltas, a série deixa para o futuro questões como a verdadeira missão de Stick e o paradeiro da mãe de Matt.

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Como antagonista a série conta com ninguém menos que Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio), que tem sua presença cuidadosamente construída durante o início da temporada. Temos a oportunidade de ver o início de sua ascensão criminosa antes de ser conhecido como Rei do Crime. O personagem é muito bem trabalhado e também tem flashbacks que contam sua origem e motivação, tornando ainda mais impactante cada ação brutal do vilão, que aqui aparece com ternos de várias cores, menos seu icônico traje branco. Além do aspecto criminoso, o personagem tem seu lado romântico desenvolvido ao lado de Wanessa (Ayelet Zurer), uma vendedora de arte que faz Fisk se tornar negligente em relação aos negócios.

O plano de Fisk visa controlar a cidade se aproveitando da destruição causada durante a Batalha de NY, vista em Os Vingadores. Com grande clima de máfia, o futuro Rei do Crime controla a presença chinesa, russa e até a Yakuza, tomando lugar do “aposentado” Rigoletto, mafioso italiano que comandava anteriormente a cidade, comprando policiais, juízes e políticos. Apesar de Rigoletto não aparecer, ele é um personagem conhecido das HQs, que também já foi alvo do Justiceiro na revista Punisher MAX. Impregnando cada camada da Cozinha do Inferno com o mal da corrupção, Fisk cria uma rivalidade ímpar com o Demolidor e dá início a uma verdadeira disputa pela cidade que culmina no aguardado confronto direto.

Nos quesitos técnicos, Demolidor se beneficia com as qualidades esperadas de uma produção original do Netflix. A Cozinha do Inferno, bairro de NY onde ocorre a trama, está fielmente representada de acordo com as HQs e o Universo Marvel dos cinemas, sendo completamente dominada pelo crime e pela corrupção. O tom urbano da série e o nível de poder mais humano do Demolidor faz com que não haja confrontos heroicos e sobre-humanos, mas combate a crimes como tráfico, assaltos e sequestros, garantindo o clima sombrio e se distanciando dos super-heróis dos cinemas. As lutas no geral empolgam e passam sensação de impacto a cada golpe, fazendo você torcer para o herói se levantar e desviar das balas. Quase todos os episódios tem doses generosas de ação e violência explícita, tornando a série inadequada para menores, mas preservando a natureza do personagem.

A série Demolidor consegue representar perfeitamente todo o universo do personagem e acrescenta uma nova camada ao Universo Cinematográfico Marvel, que não poderia ter tido um melhor início em sua expansão para TV. Em seu décimo terceiro episódio o programa termina no ápice e já deixa saudades. Felizmente, antes da segunda temporada veremos o Demolidor na série Defensores, que encerra a Fase 1 das séries Marvel no Netflix.

Ficha Técnica:
Demolidor – 1ª temporada – 2015
Duração: 13 episódios
Gênero: Ação/Crime
Criador: Drew Goddard
Elenco: Charlie Cox, Vincent D’Onofrio, Deborah Ann Woll, Elden Henson, Rosario Dawson, Ayelet Zurer, Bob Gunton, Toby Leonard Moore, Vondie Curtis-Hall, Scott Glenn, John Patrick Hayden, Matt Gerald

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