Resenha – Until Dawn

Após um longo histórico de desenvolvimento para o PlayStation 3 com uso do acessório PlayStation Move, Until Dawn foi reapresentado ao público no ano passado como um exclusivo do PlayStation 4. Com gráficos de ponta e uma premissa inusitada, o game rapidamente passou a ser um dos mais aguardados pelos fãs da Sony. Partindo de um pontapé inicial clássico em filmes de terror das antigas, o enredo traz oito amigos que decidem passar uma noite num chalé montanhoso um ano após uma tragédia ocorrer no mesmo local. Sim, este princípio já anuncia que a intenção do jogo é abraçar todos os clichês possíveis do gênero, mas ele vai muito além disso.

Until Dawn permite ao jogador controlar todos os oito amigos e tomar decisões enquanto a história avança quase que automaticamente. Uma simples noite na montanha logo se torna um pesadelo com um assassino a solta, fazendo com que a prioridade número um seja sobreviver até o amanhecer. Apesar de inicialmente simples, a trama tende a tomar proporções maiores na medida que você explora a verdade por trás dos panos, criando um ar de suspense e mistério raramente tão bem construído num videogame. Quem achou que por trazer uma experiência cinematográfica o jogo dispensaria atenção do jogador, que passaria a ser espectador, se enganou. Mesmo em momentos onde você apenas assiste pode ser necessário executar um comando rápido para interagir e sobreviver, tornando necessária atenção constante. Por conta disso, o jogo usa e abusa de sustos rápidos e cria tensão bem elaborada, às vezes incluindo violência explícita, ao longo de seus dez capítulos.

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As primeiras horas servem para apresentar os personagens e tornar o jogador familiarizado com as particularidades de cada um deles, sendo o momento em que já poderá imaginar quem você deseja ver com vida quando a noite acabar. A jogabilidade segue a fórmula que ganhou fama em Heavy Rain (PS3), tendo como foco total a trama e uma quantidade avassaladora de QTEs (quick time events), em que você precisa apertar botões que são jogados subitamente na tela em momentos chave. Uma particularidade inovadora é que para abusar da tensão o jogo às vezes exige que você NÃO execute comando algum. Isso mesmo, ao invés de apertar um botão o jogo irá exigir que o controle fique completamente imóvel. Parece fácil, certo? Errado. Nestes segmentos o controle irá vibrar e o sensor de movimentos irá te prejudicar se ele sair do lugar. Claro que você ainda pode trapacear desligando a vibração e colocando o controle em cima da mesa, mas isso tira a tensão extra construída com esta novidade. Alguns trechos são recheados de ação e incluem até tiroteios, mas estes são dosados para que você consiga guiar a história.

Todos os personagens do jogo tem suas próprias características e status de relacionamento uns com os outros que se alteram de acordo com suas ações e escolhas. Em mais de uma ocasião você se verá tendo que escolher qual dos amigos irá morrer ou mesmo se prefere ver o tempo acabar sem interferir no estilo Jogos Mortais. De toda sorte um dos grandes trunfos do jogo é não ter segunda chance para nada. Caso você erre um comando e um dos personagens venha a morrer, ele está morto e assim ficará até a sua partida terminar, sendo passado o controle para outro personagem. Ao mesmo tempo que isso cria arrependimento gera uma grande sensação de aprendizado e a curiosidade de imaginar o que teria acontecido se tivesse escolhido outro caminho. Esta mecânica é chamada de Efeito Borboleta e funciona de maneira simples, mas traz resultados complexos. Toda vez que realizar uma escolha, seja entre correr ou se esconder, discutir ou ficar calado, uma consequência será gerada e você perceberá onde isso terá impacto no futuro. Por força desta mecânica, Until Dawn foi pensado como uma experiência interativa em que não é possível absorver todo o conteúdo numa só partida, tendo múltiplos finais possíveis.

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Fazendo uso da amada ou odiada câmera fixa, o jogo traz uma quantidade farta de coletáveis que trazem pedaços da trama. Quanto mais você encontra objetos pelo cenário, mais partes do imenso quebra-cabeças você possui para entender a trama. Entre os coletáveis os mais interessantes são os Totems, que trazem uma prévia do que acontece no futuro. Em locais específicos do mapa você encontrará estes objetos e terá uma visão de algo que irá acontecer com algum dos amigos em algum momento futuro, não necessariamente logo a seguir com o personagem que você controla. Usar estas dicas com sabedoria é um dos segredos para sobreviver e ver o fim da história com seu personagem favorito, já que todos passam por ameaças constantes e assustadoras. Uma das figuras mais enigmáticas do jogo se chama Dr. Hill (referência ao clássico de terror da Konami?), que é um psicólogo que trata um personagem misterioso entre cada capítulo do jogo, falando diretamente com o jogador. Nesta consulta cada escolha que você fizer terá impacto no desdobramento da trama, tornando a experiência ainda mais interativa. Por exemplo, dizer pro doutor que você tem medo de aranhas ou palhaços deve ser algo muito bem pensado.

Os gráficos de Until Dawn são mais do que dignos do console de atual geração da Sony, porém sofrem de problemas de instabilidade na taxa de frames por segundo. Apesar do belíssimo visual, o jogo não flui com naturalidade durante todo o tempo, o que prejudica a ótima atuação do elenco que serviu de base para avançada captura de movimentos utilizada. A Sony apostou em alguns rostos conhecidos, que se dedicaram para dar vida aos personagens do game. A rica ambientação e a boa atuação do grupo torna o jogo algo que pode ser facilmente assistido como um filme. Os cenários possuem uma atmosfera muito reconhecível para fãs do terror clássico e passam por cabanas no meio do nada, cavernas escuras e até um sanatório abandonado. Graças ao trabalho de localização completo, no Brasil o jogo foi lançado com uma ótima dublagem, apesar de perder o sincronismo labial das vozes originais, sem esquecer dos palavrões, afinal de contas a trama é protagonizada por jovens americanos. A localização também facilita o acesso ao belo material extra destravável, que inclui making of e entrevistas.

No fim da noite os apreciadores do terror tem no PS4 um exclusivo que deve atingir em cheio suas expectativas, apesar de não ser livre de pequenos defeitos. O fato das escolhas gerarem consequências irreversíveis só aumenta o grau de imersão da experiência e traz inúmeras possibilidades para quem está no comando, com surpresas garantidas até o fim. Se você é do tipo de jogador que se incomoda com games onde você assiste mais do que joga (como o também exclusivo recente da Sony, The Order: 1886) dificilmente Until Dawn irá agradar. Porém, se você procura uma experiência interativa de terror pode ficar sossegado pois o que temos aqui é uma viagem intensa e cheia de sustos, que te convida para retornar e buscar um resultado diferente da partida anterior, provando que cada escolha importa.

Ficha Técnica:
Título: Until Dawn
Gênero: Terror
Desenvolvedora: SuperMassive Games
Distribuidora: Sony
Data de Lançamento: 25/08/2015
Preço Sugerido: $59,99/R$199,90
Plataformas: PlayStation 4

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  • Natanael Rabello

    Já tem gameplay do jogo no youtube.com/channel/UCA3GZz8IDkI8I353zl1CIrg. Do Destemido. Muito bom!