Resenha – Os Pilares da Terra

Os Pilares da Terra é o primeiro livro da trilogia medieval criada por Ken Follett, baseada na Inglaterra em meados do século XII. Embora o livro inicial de uma trilogia, cada obra narra um período histórico de uma mesma região, então não se preocupe porque cada exemplar é exclusivo e há pouca relação entre eles.

Ken Follett, escritor de diversos livros históricos e thrillers policiais, resolveu investir nesse romance épico e dramático onde o foco principal é o personagem. E como existem personagens neste livro! Alguns protagonistas se tornam secundários, diversos coadjuvantes viram principais e outros simplesmente desaparecem. Ken Follett não tem pena do leitor, coloca os personagens em seus lugares sem problemas.

Por ser um romance de base histórica, o autor pega elementos – como o século XII e a morte de Henrique I – para desenvolver uma trama à lá As Crônicas de Gelo e Fogo. Henrique I, o rei, morre não deixando herdeiros válidos – apenas uma filha e um filho bastardo – dando início ao jogo de poder entre personagens terciários.

Enquanto temos esse pano de fundo, o livro se foca exclusivamente nos personagens que são afetados pelas brigas e intrigas de uma Inglaterra em guerra sem rei coroado. Dentre os muitos personagens principais temos Tom Construtor e Philip, o prior. Tom e sua família buscam trabalho de cidade em cidade sempre querendo – no íntimo – conseguir construir uma catedral. Já Philip se encontra no meio do jogo de poder entre os próprios priores, arcebispos, padres, bispos e toda a estrutura da Igreja. Vale lembrar que é recomendado bolar uma árvore genealógica por sua conta para lembrar-se de tantas pessoas, pois o livro não dispõe disso.

Prepare-se para as aulas insuportáveis de construções imaginárias de catedrais que Tom Construtor irá dar. São páginas e páginas de descrições chatas e sem sentindo que o personagem fará e você morrerá de tédio. A cada nova cidade visitada lá se vão três páginas descrevendo a igreja principal. Ou quando Tom decide criar na cabeça sua própria catedral tentando sempre nos mostrar passo-a-passo como devem ser construídas obras religiosas…

Apesar desse pormenor, a escrita é muito fluída e atraente. Ken Follet consegue juntar descrição com narração de uma maneira quase perfeita. As tramas se ligam muito bem e sempre dão a sensação de “mais por vir no próximo capítulo”, puxando o leitor para dentro do mundo. Interessante também é como a religião tem um papel fundamental na trama durante todo o texto. Ela é usada para conquistar pessoas e massagear egos, servindo como uma ponte para ligar os personagens aos seus objetivos, colocando-a como algo presente na vida dos personagens.

Há uma mistura de fatos reais com fictícios. Obviamente isso é uma romantização do período histórico, mas é agradável ver que a base central do livro é muito bem construída usando os fatos. O livro vai de 1123 até 1174 sendo dividido em seis partes representando uma faixa de anos até outra.

Embora parte importante do livro seja a interação entre os personagens – e todos se encontram com frequência -, há uma grandíssima falta de desenvolvimento deles. Vemos os personagens crescendo e enfrentando desafios, mas pouco ou nada de seu caráter é ampliado, deixando-os completamente genéricos e sem graça. A criação dos vilões também é genérica colocando estupros como artifício batido para despertar o ódio do leitor para com os vilões.

A edição física do livro está excelente: capa dura, folha de rosto e fita para marcar página complementam o preço extremamente convidativo para a entrada nessa aventura medieval. É uma pena que a Editora Rocco optou por não colocar mapa, deixando você um pouco perdido durante a trama.

Ao longo do livro vemos os personagens enfrentarem desafios e sempre os superarem, dando a sensação de que o livro nada mais é do que um grande compilado de sucessos. Lá para o fim isso é usado com excesso onde cada capítulo é terminado com um grande problema a ser resolvido seguido de outro capítulo para arrumar esse problema e assim sucessivamente. Ficou cansativo e desnecessário esse ‘loop’ que mais me lembrou de algo como Dragon Ball, onde sempre aparece um problema maior e maior e maior para ser resolvido. Isso acaba deixando o livro longo demais e sem necessidade, onde tudo poderia ser enxugado bastante em uma edição com a metade de páginas do que temos hoje.

Há personagens que se rearranjam melhor do que outros embora todos eles sejam interessantes. Sim, são genéricos, mas em nenhum momento me senti incomodado com eles, apenas acredito que eles deveriam ser mais carismáticos. É tão interessante ver como esses personagens pobres e humildes entram em situações caóticas com facilidade meio que “sem querer” e quando nos damos conta, encontramos todos jogados numa trama política envolvente e bacana. Não senti nada forçado e tudo me pareceu 100% natural. As situações primordiais não foram colocadas no livro apenas para renderem, mas sim foram criadas de maneira suave e realista dando a boas surpresas para o leitor.

Os Pilares da Terra é um livro bom. Sofre de problemas chatos que não me fizeram apreciá-lo como uma obra magnífica, mas é uma leitura muito agradável e ampla, esforçando o leitor a passar pelos desafios dos personagens com a aflição de estar lá do lado, colocando situações tão fortes e importantes que você não vai querer largar o livro.

 

Prós:

– História interessante e envolvente

– Entrosamento entre personagens

– Escrita fluída e descritiva

– Edição física e preço

Contras:

– Personagens sem desenvolvimento

– Tamanho desnecessário

Editora Rocco                    2012                      941 páginas