Resenha – Neuromancer

Neuromancer, escrito por William Gibson, é o primeiro livro da trilogia chamada Sprawl, lançada pela Editora Aleph. O livro, lançado em 1984, é ao mesmo tempo a bíblia do Cyberpunk como também uma obra que conseguiu prever diversas tecnologias que vieram posteriormente. Tendo conquistado os três maiores prêmios da ficção científica estadunidense (os prêmios NebulaHugo e Philip K. Dick), a obra é considerada uma das maiores e mais inspiradoras do século passado.

De maneira mais básica, Neuromancer não é inovador em sua trama. Temos Case, um cowboy (hacker) ladrão de aluguel na matrix que acaba tentando roubar de seus próprios patrões e é pego. Com isso, Case é envenenado e agora é incapaz de praticar seus furtos, caindo em uma depressão envolvida em alto consumo de drogas, se tornando um cara que faz de tudo para manter-se vivo por mais um dia e beirando a loucura.
Tudo dura pouco até Case ser abordado por Armitage, que oferece um trabalho em troca de uma cura para sua “doença”. Nisso, também somos apresentados à Molly, uma garota estranha com lâminas nas unhas e que se torna a segurança de Case. A partir daí o enredo torna-se um emaranhado de situações, descrições de lugares e neologismos sem fim.

Escrever sobre o que William Gibson quis dizer sobre seu próprio livro é ao mesmo tempo complexo e incompetente de minha parte. Temos nele uma sensação de dualidade que tanto lhe ajuda quanto atrapalha. Se William tenta criar um mundo completamente novo e caótico, pouco ele faz para nos ambientar de maneira correta. Falta em sua escrita uma maneira mais simples de cativar o leitor, de guia-lo mesmo de maneira pequena dentro deste mundo completamente diferente do nosso. Ao invés disso, Gibson parece contar como seria esse mundo de maneira apressada, confusa, complexa e sem deixar o leitor parar para ambientar-se por qualquer momento.

A sensação de estar perdido na história é constante. Ao olharmos a capa pensamos se tratar de um livro de caráter mais simples, mas o que temos é uma leitura tão difícil e truncada que te deixa confuso. Por diversas vezes tive que voltar páginas e capítulos achando que tinha perdido algo para simplesmente entender qual a intenção. Por Case estar perdido em toda a sua própria situação, o escritor quis nos passar o mesmo sentimento, o que nos leva a crer que ele cria uma narrativa complexa de forma proposital.

Novamente a Editora Aleph conseguiu criar uma obra única, artisticamente falando. Com uma capa linda, contracapa e a área interna, tão bem cuidadas, é incrível ver como uma editora tem o cuidado de avançar além das capas básicas e genéricas, atingindo um patamar sem igual hoje no mercado brasileiro. Internamente o livro também é exemplar com uma tradução ótima, uma revisão excelente e boa edição.

Incrível é a habilidade de William Gibson em conseguir “prever” o que o futuro esperaria. Estamos aqui falando de um livro lançado em 1984,  ano este onde a Internet estava se moldando e ainda era uma realidade distante, o autor conseguiu captar muitas coisas que essa ferramenta seria capaz de nos mostrar. A matrix no livro, nada mais é, do que uma versão da Internet atrelada em realidade virtual onde a pessoa se projeta para a rede. O próprio termo ciberespaço foi amplamente usado e explicado por William, ganhando notoriedade a partir de então, sendo usado até hoje justamente por conta do autor.

Neuromancer foi um livro à frente de seu tempo e considerado a bíblia do Cyberpunk, inserindo termos, ideias e realidades tão diferentes das vistas em 1984. É interessante ver como Gibson conseguiu por trás de tudo isso iniciar diversas críticas sociais – embora um poucas pinceladas – como o alto uso de drogas naquela sociedade, a criação de inteligência artificial e seus limites, a manipulação física humana, decadência social entre tantos outros fatores que ficaria horas falando. Mesmo assim, o livro falha em dar ênfase a qualquer um desses temas, parecendo mais uma ideia abordada do que algo aprofundado.
Muitos falarão que William quis dizer muito com poucas palavras, ambientando – ou pelo menos tentando – o leitor em um mundo de total dependência da tecnologia e do afastamento interpessoal, porém “chutar” que essas foram as intenções do autor é olhar além da obra onde cada leitor retirará aquilo que lhe interessar.

Os personagens são apáticos do início ao fim e isso, acredito, foi de maneira premeditada para nos distanciar dos personagens. Eles são frios, repelentes a qualquer forma de carinho que não seja o sexo e não há nenhuma sensação de apego entre eles. Embora haja um romance entre Case e Molly, os dois agem de maneira coordenada como se existissem passos a serem seguidos. Isso os torna estéreis para o leitor, mas ainda de uma maneira agradável. Há sim esse contexto da falta de contato, da falta de amor, da irrelevância do amor do outro e isso é bem sacado durante todo o livro.

Embora à frente de seu tempo, Neuromancer é um romance de nicho e muito complicado, que intriga e afasta o leitor ao mesmo tempo, criando um mundo tão complexo e interessante que parece só fazer sentido na cabeça do próprio autor. Isso induz o leitor a reler o conteúdo para pegar míseras pistas que, na maioria das vezes, não o levarão a lugar algum. O público muito provavelmente passará mais tempo tentando entender o que William está querendo transmitir do que de fato apreciando a obra à sua frente.

Prós:

– Trama envolvente

– Imaginativo

Contras:

– Escrita confusa

– Complexidade desnecessária

 

Editora Aleph                         2016                   316 páginas