Resenha – 3% (Original Netflix, 2016) – 1ª Temporada

Estreou recentemente a tão aguardada série brasileira 3 por cento, que prometia ser uma grande produção brasileira e cumpriu com seu propósito.

A capacidade do Brasil em contar histórias de maneira seriada já não é novidade, porque as novelas fazem isso muito bem, e as séries não tem seguido em um caminho diferente. Não que ela seja perfeita, mas as imperfeições acabam se tornando pequenas se comparado ao roteiro e à produção, que fica difícil não achar ela inteligente em sua plena forma.

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A premissa é simples: Aos 20 anos, os jovens têm a oportunidade de passar por um processo que mudará suas vidas. O Maralto é o local aonde todos os sonhos se realizam e não existe desigualdade. Ou seja, uma distopia com muitas críticas de cunho social.

Ela trata várias nuances da sociedade e as críticas que ela pretende trazer são inúmeras. O corrompimento do ser humano, até onde ir acreditando num ideal, ideologias cegas ou a falsa felicidade que faz por à prova o caráter de quem acredita, e principalmente a meritocracia como forma de avaliação. O mérito dos 3% se faz muitas vezes de formas subversivas, aonde o esperto tira o lugar do correto, e o bonzinho que, por achar que merece, pode ser o pior de todos. Por vezes, a justiça é uma mera ilusão.

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A crítica geral e que pode ser destacada é sobre ideologias: toda ideologia ou crença extrema é ignorante, e a série consegue retratar isso de uma forma muito inteligente. E talvez a maior justiça que exista seja ser fiel aos seus princípios.

As atuações são um ponto forte da série

As atuações definitivamente conseguem sair um pouco do foco noveleiro e das produções óbvias. Dentre o grupo principal, alguns merecem atenção: Fernando (Michel Gomes) é o cadeirante que é subestimado por todos e que acredita fidedignamente no processo. Michele (Bianca Comparato) é uma das principais e seus objetivos são claros desde o episódio piloto. Temos a Joana (Vaneza Oliveira), que é a mais invocada e a que tem a personalidade mais forte e que talvez seja a considerada uma sobrevivente e uma guerreira entre os demais. E por fim, e não menos importante, o Rafael (Rodolfo Valente), o malandro que tenta sempre ganhar na esperteza e desde o início usou essa esperteza pra ser aceito.

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Cada personagem vai sendo trabalhado aos poucos em cada episódio, mostrando seus passados, suas angústias, os traumas e as perdas de cada um. E nesse sentido o roteiro é bem completo, dando espaço a todos e não excluindo ninguém, e também trabalhando a percepção do espectador, já que é criada essa empatia do personagem com quem assiste. E talvez a maior preocupação é que a série seja óbvia demais, mas não é.

Temos, ainda, o lado não do candidato, mas do sistema do Processo em si, em que uma moça, Aline (Viviane Porto), é enviada para ficar de olho no avaliador Ezequiel(João Miguel) e enviar relatórios frequentes, ou descobrir algo que seja palpável o suficiente para que o conselho o afaste de vez. Há também coisas que não são explicadas no primeiro momento, mas que vão sendo explicadas nos outros episódios, e de maneira geral, é uma série bem completa, tão completa que dá até orgulho de dizer que é do Brasil.

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Só tem um aspecto que incomoda, e mesmo que talvez seja proposital, a “câmera bêbada” cria um certo desconforto. Alguns ângulos também não são os melhores, mas o ponto alto é o roteiro e as atuações, que prendem do início ao fim.

Decididamente é uma série pra dar uma chance e esperar ansioso pela segunda temporada, já que ela deixa um gancho muito interessante para uma continuação e algumas coisas não resolvidas. Se o Brasil seguir nessa linha de qualidade, podemos esperar grandes trabalhos nos próximos anos, porque a tendência é sempre melhorar.