Resenha – Nós

Nós, de Ievguêni Zamiátin é considerada a distopia progenitora de todos aqueles livros best-sellers que viraram filmes e arrecadaram milhões de dólares narrando histórias de adolescentes duelando contra um Estado completamente autoritário e ditatorial. Para você que leu pelo menos uma dessas recentes distopias famosas, saiba que Zamiátin escreveu Nós em plena Revolução Russa, e que a obra foi proibida de ser publicada no país até 1988.

Ievguêni nasceu e cresceu na então União Soviética e foi um escritor perseguido pelas autoridades nacionais, o que culminou na sua saída do país. Zamiátin buscou asilo na França, onde morreu com 53 anos, desconhecido e na pobreza.

As semelhanças com o autor George Orwell (1984, A Revolução dos Bichos) são gritantes. Ao final do livro Nós, temos uma resenha do próprio Orwell sobre o livro de Ievguêni, onde ele relata como ele foi importante influência para outras obras, tal como Admirável Mundo Novo, de Audous Huxley. Um detalhe curioso é o fato de Orwell também ter sido extremamente influenciado por Nós, a ponto de poder-se notar cerca de 80% dos elementos narrativos da obra de Zamiátin em 1984, considerado um clássico da ficção e da distopia.

Diferente do que temos nas distopias modernas, Zamiátin não foca sua escrita na política ou em sua evolução, mas sim na história pessoal de D-503: um engenheiro que realiza seu sonho ao construir a espaçonave Integral, que tem como missão levar informação sobre o Estado Único para todos os planetas da galáxia. Dentro dessa finalidade, D-503 almeja falar como sua vida é maravilhosa no Estado Único e como o grande Benfeitor é um líder a ser invejado por todo o universo. Assim, ele começa a escrever um diário contando como é bom viver naquele local. Obviamente, as coisas saem de controle quando ele conhece I-330, uma mulher misteriosa que ousa confundir sua mente e lutar contra o Estado Único.

A trama é simples, porém a leitura não é fácil. Zamiátin usa um eu-lírico na narrativa para explorar o lado humano do personagem, deixando de lado a parte mais política e caótica do Estado Único, aproximando a obra mais de uma grande poesia sobre a existência humana do que uma ficção pesada. Porém, isso acaba sendo um ponto positivo, pois o livro não tenta ser mais do que ele é, sendo pequeno, sem muitos plots paralelos e explicações complicadas. Na verdade, Nós foca no ser humano e nesses pensamentos e explorações humanas. Então, prepare-se para um ritmo de leitura lento, mas, ao mesmo tempo, lindo e poético. Zamiátin conseguiu trazer uma escrita profunda e focada, sem descaracterizar a sua própria obra.

Uma vez que a grande trama política não é o foco do livro, você deve estar atento a todo momento, porque o autor coloca as informações pontualmente sem explicar demais, e cabe ao leitor capturar esses fragmentos para saber mais sobre o mundo ao redor de D-503. Em Nós, o governo não parece ser tão repressor como estamos acostumados a ler em obras subsequentes. Ao invés disso, prevalece uma cultura onde o coletivo – talvez daí o título do livro – é mais importante do que qualquer atividade individual. As eleições são completamente abertas e todos sabem em quem os outros irão votar. Além disso, todos moram em grandes prédios feitos de vidro para que todos saibam tudo sobre a vida do vizinho. Há a “Tábua de Horas”, onde você tem todas as suas tarefas anotadas e deve seguir sempre o cronograma, entre outras tantas coisas que o Estado Único faz.

Além da edição física maravilhosa, temos inclusa a já mencionada resenha de George Orwell e também a carta que Zamiátin mandou para Stálin, pedindo que ele fosse extraditado por não aguentar mais ser censurado em tudo o que ele fazia por lá. E,  de tudo, a carta do escritor foi o que mais me marcou. Acredito que, durante o livro, Zamiátin conseguiu transferir efetivamente os sentimentos dos personagens em palavras e fez o mesmo conseguiu com sua carta. As palavras, a súplica por se sentir tão esgotado das constantes censuras são sentidas e tiveram um efeito gigantesco em mim. É muito triste e deprimente ver que um autor com uma obra tão aclamada e pioneira acabou na obscuridade e na pobreza fora de seu próprio país.

Por fim, Nós é uma obra que me cativou mais do 1984 por trazer uma visão diferente do que temos, menos focada no governo e mais no aspecto humano. A leitura não é fácil, a trama não é a mais envolvente, mas os resultados devem ser aplaudidos. Zamiátin foi um gênio da literatura e essa edição não poderia ter vindo em melhor hora do que agora.

Prós

– Personagens humanos

– Escrita poética

– Edição física

Contras

– Trama lenta

Editora Aleph                                   2016                               344 páginas