Resenha – Mistborn – O Império Final

O gênero Fantasia nunca esteve tão popular quanto hoje. Nessa categoria temos George R.R. Martin, Neil Gaiman, Rick Riordan entre milhares de outros autores. Brandon Sanderson talvez seja o escritor mais produtivo nesse mercado atualmente, lançando no mínimo dois livros por ano e criando tantas trilogias que não podemos nem contar.

Se ano passado tivemos Coração de Aço, hoje temos o primeiro volume da saga Mistborn. E é com grande pesar ao dizer que fazia tempo que não encontrava um livro tão genérico e enfadonho na minha frente. Em todos os quesitos, Brandon Sanderson falha em criar uma trama envolvente com qualquer tipo de originalidade.

Aqui temos a velha luta de classes e a tentativa de tirar o Senhor Soberano – o grande vilão – do poder. Para não criar um universo simples demais, Sanderson cria uma classe rara chamada de Alomânticos e outra ainda mais rara chamada de Nascidos da Bruma. Ambos possuem a habilidade de “queimar” os metais ingeridos e assim ativar certas habilidades. Cada metal ativa uma capacidade específica: peltre, por exemplo, deixa a pessoa fisicamente mais forte e resistente. Os Alomânticos podem “queimar” apenas um metal enquanto os Nascidos da Bruma podem queimar todos, garantindo um poder ainda maior do que seus “primos distantes”.

Sabendo como toda a magia da fantasia funciona, podemos avançar para o plot principal. Kelsier, um Nascido da Bruma poderosíssimo, junta um grupo de Alomânticos e outra Nascida da Bruma, Vin, para realizarem um ataque ao grande Senhor Soberano a fim de tirá-lo do poder e deixar o povo escravo – chamado de Skaa – livre da tirania.

É curioso ver como tanto Coração de Aço quanto Mistborn carregam os mesmos problemas e até algumas melhorias. O maior problema de Mistborn é a escrita de Brandon que é passável, enlatada e completamente irritante. Ao invés de deixar o leitor ligar os pontos, Sanderson tem a mania de justificar e explicar todos os passos de cada personagem deixando o leitor se sentindo uma criança guiada pela mão. A cada novo acontecimento, o autor faz questão de nos dizer os planos dos personagens, estragando muito a leitura.

O único personagem realmente carismático e real é Kelsier. Ele fala e age como uma pessoa real, embora algumas ações pareceram completamente fora do personagem. De resto, todos os outros personagens servem com o único propósito de serem ferramentas para o grande plano de derrotar o Império Final. Vin, quem provavelmente deveria ser a personagem principal, é uma garota que fala como se tivesse 80 anos. Sanderson usa milhares de advérbios nas falas dando o total esvaziamento dos diálogos, soando irreal. Novamente temos os personagens caracterizados por seus atributos: o forte, o inteligente, o legal. O problema é que você não se importa com nenhum deles.

Cada oportunidade usada pelo autor para os resultados parece meticulosamente já pré-pensada e forçada. Vin conversa com personagem X para levantar ciúmes de personagem Y e isso sempre funciona de maneira perfeita. Embora haja a trama dos personagens se unindo para o grande ataque final, ela nunca acontece. Sanderson prefere focar em tramas políticas bocejantes enquanto temos um distanciamento real do que ele se propôs no começo do livro e talvez o real motivo da trama falhar.

A capa é excelente em todos os quesitos. Não se compara de maneira alguma com as outras capas lançadas internacionalmente porque é linda e cheia de detalhes engenhosamente colocados nos lugares certos. Há dois mapas ilustrativos embora você não os vá usar muito. Com relação à tradução e edição, a Editora Leya fez um excelente trabalho em todos esses quesitos.

A relação com Coração de Aço, um trabalho infinitamente superior, é notável em diversos pontos: não sendo somente em seu plot mas também em personagens escolhidos para serem os heróis gerais. Mistborn foi escrito 7 anos antes de Coração de Aço sendo notável quanto o autor cresceu conforme os anos se passaram. Mesmo assim, Brandon Sanderson parece ser um autor comercial, publicando livros que agradem a população geral, inserindo personagens e plot twists especialmente pensados para agradar o público.

No fim, Mistborn é um livro grande demais para o que se propõe. Com uma escrita chata, uma trama que se dilui diante das centenas de páginas que a separam e personagens nada atraentes, Brandon Sanderson comprova a tese de que é melhor fazer uma obra excelente em dez anos do que duas medíocres em um ano só.

 

Prós:

– Personagem principal

– Mapa

 Contra:

– Escrita passável

– Personagens unidimensionais

– Trama genérica

Editora Leya                                   2014                               607 páginas        

  • Só para comparação, quais outros livros de fantasia você considera como “bons”?

    • DérickCM

      A saga The Witcher é muito boa, assim como As Crônicas de Gelo e Fogo, Harry Potter, A Torre Negra, entre alguns outros.

  • André Regal

    Muito obrigado por essa resenha. Li dois capítulos e tive as MESMAS impressões. Abandonei.