Resenha – Dias de Abandono

O que ocorre quando o amado marido uma relação longa e aparentemente bem sucedida relação vai embora sem dar explicação? Como a esposa se sente? Como as crianças conseguem lidar com o fato de o pai de uma hora para a outra não estar mais presente no lar? Em Dias de Abandono, Elena Ferrante assume o papel de mulher largada pelo marido.

Antes de mais nada, Dias de Abandono aparenta – e muitas vezes é – um livro de nicho específico: desde sua trama lenta até a falta de ação por parte da escritora. Se você é um dos leitores que não gostam de livros profundos ou até mesmo lentos que visam a construção de personagem, Dias de Abandono claramente não será para você.

Elena Ferrante simplesmente não existe na vida real, pelo menos não com esse nome já que se trata de um pseudônimo de algum escritor(a) capaz de manter segredo sobre sua real identidade. Parece-me estranho que seja um homem porque em Dias de Abandono, fica claro que estamos tratando de um livro escrito por uma mulher que entende perfeitamente a mente de outra mulher.

Na obra, temos uma família simples e normal composta de pai, mãe, uma filha e um filho mais novo. Em dado momento, após uma refeição, Mario avisa que deixará a família sem mais nem menos. Temos então as lutas internas de Olga e a tentativa dela em lidar com essa dor, passar pelo luto de perder o próprio marido sem grandes justificativas ou razões.

Com uma escrita muito lenta e uma atenção aos detalhes, Olga, que também é a narradora do livro, passa pelas fases de um término, desde justificar o abandono do marido para si e as crianças, até a necessidade de se sentir uma mulher novamente capaz de lidar com outros homens, de se sentir feliz consigo mesma, de achar a beleza interna de qualquer pessoa abandonada.

Embora simples, Elena consegue extrair todo o sofrimento e dor de uma mulher que passa a ficar obsessiva pelo ex-marido, que passa também a se questionar a todo e qualquer momento sobre o passado, se ela cometeu algum erro, se ela não foi o suficiente. A mente de Olga fica abalada a ponto de acabar quase ficando louca, de esquecer as coisas no fogo, de não conseguir concluir tarefas básicas, de cuidar de seus próprios filhos. A autora consegue te ilustrar todo o cenário perfeitamente, te jogar para dentro da mente da mulher abandonada e de como toda aquela situação às vezes parece maior do que ela pode aguentar e é desesperador ver como a família parece desmoronar conforme Olga entra em colapso total.

Outro destaque são as crianças que proporcionam os únicos segundos de comédia da obra. No meio daquele caos todo em que a mãe se encontra, seus filhos parecem importunar ainda mais a mãe com comentários maldosos sobre sua aparência ou sua falta de cuidado com a beleza, dando um tom cômico ao saturadamente livro triste. Você se pegará rindo de coisas horrorosas que as crianças dizem e até nos momentos de maior agonia da própria narradora, criando quase um humor negro irresistível.

É assustador pensar como um simples rompimento de relação pode desestabilizar completamente uma mulher que de uma hora para outra se vê responsável por muitas tarefas que antes eram divididas entre duas pessoas: trazer dinheiro para casa, cuidar do lar e das crianças e manter sua sanidade mental. Olga é a representação de uma mulher real que possui seus defeitos e em momento nenhum há a desconexão entre o leitor e a personagem do livro.

O livro nunca perde seu tom triste e seco. Olga é a mulher que se sente traída, que se sente inutilizada pelo marido e isso às vezes pode incomodar o leitor de diversas maneiras. As primeiras cinquenta páginas me foram extremamente entediantes porque são simples e negativas demais, e há ainda uma necessidade do leitor em entrar na obra sem que a personagem se pareça vitimizada demais sobre o rompimento. Porém, ao longo da leitura conseguimos entender do que se trata o livro e embora haja essa simplicidade superficial da trama, o aprofundamento só ocorre quando conseguimos capturar toda a essência da escrita de Elena.

Dias de Abandono é um livro que merece ser lido com cuidado e tempo. Se você procura por algo simples e de fácil digestão, a obra não será para você. Seja pela dor que temos da narradora, suas obsessões e seus lapsos mentais ou a facilidade em se relacionar com ela. É incrível ver como uma autora conseguiu capturar todos esses sentimentos tão profundos. Ouso dizer que Elena Ferrante traz uma bagagem pessoal para a trama final, resultando em uma obra única, poderosa, triste e triunfante.

 

Prós:

– Captura dos Sentimentos

– Humor Negro

Contras:

– Lentidão da Trama

Editora Biblioteca Azul                                        184 páginas                                                       2016