Crítica | Thor: Ragnarok

“Aconteceu tanta coisa desde a última vez que a gente se viu. Eu perdi meu martelo, tipo, ontem. Então ainda é bem recente.”

No primeiro filme dirigido por Kenneth Branagh em 2011, Thor, interpretado pelo ator australiano Chris Hemsworth, agia como um garoto mimado e arrogante, assim ele foi banido de sua casa e teve que aprender a ser um homem digno de seu imenso poder.

Na sequência agora sob o comando de Alan Taylor em 2013, Thor: O Mundo Sombrio, o Deus Do Trovão enfrentou o temível líder dos Elfos Negros, Malekith, apenas para Thor perder sua mãe e aparentemente, seu irmão enquanto cumpria seu dever como protetor dos nove reinos.

Apesar da abordagem diferente de ambos os filmes e com uma visível melhora no segundo, o lado Shakespeariano da mitologia do protagonista simplesmente não funcionava, não conseguindo agradar ao público como os outros filmes desse mesmo universo, sendo considerado por muitos como os mais fracos entre as dezessete adaptações produzidos pela Marvel.

Mas com a direção de Taika Waititi conhecido pelos seus filmes de comédia  e com o roteiro de Eric Pearson, o jogo virou, e a denominada “Formula Marvel” atinge seu potencial máximo com a terceira adaptação do Deus Do Trovão, Thor: Ragnarok, conquistando com excelência uma merecida posição entre os melhores filmes da Casa Das Ideias.

O terceiro capítulo do “Lorde” Do Trovão ao som de “Immigrant Song” do Led Zepplin, consegue ser um filme recheado de referências memoráveis do início ao fim com uma ambientação retrofuturista, fazendo alusões a diversos clássicos da cultura pop com atuações divertidíssimas contando com um elenco genuinamente orgânico a trama, auxiliada por uma extraordinária trilha sonora, aprimorando as características audiovisuais vistas em Guardiões da Galáxia, casando perfeitamente com um humor atemporal e trazendo para as telonas uma ótima adaptação com toda psicodélia colorida visual de Jack Kirby, mas também contando com múltiplas referências ao trabalhos de Walter Simonson, considerado por muitos como um dos únicos autores a entender de verdade o Deus Do Trovão.

O elenco já conhecido como Anthony Hopkins, Tom Hiddleston, Mark Ruffalo, Idris Elba e Benedict Cumberbatch, já familiarizados com seus respectivos personagens, retornam mais uma vez com atuações fantásticas e com um humor na medida certa, mas são os novos personagens que roubam as cenas com atuações memoráveis e surpreendentes, como o excêntrico e espalhafatoso Grão-Mestre interpretado por Jeff Goldblum que nitidamente se divertiu e se soltou pra fazer esse papel, ou Korg com sua voz característica emprestada pelo próprio diretor ou com a fanfarrona Valquíria interpretada pela Tessa Thompson, seu apelido Sucateira 142, é uma referência para primeira aparição da sua personagem nos quadrinhos, em “The Incredible Hulk #142”, por isso sua afinidade com o Gigante Esmeralda, ate mesmo o skurge interpretado pelo expressivo Karl Urban, que transmitia estar no meio de um dilema moral com apenas um olhar.

Mas é a antagonista, Hela, com a magnifica atuação da premiada atriz australiana Cate Blanchett, que dita todo o tom do filme, esbanjando charme desde sua aparição repentina até o seu misterioso desfecho, com a possibilidade de um retorno triunfal nos próximos capítulos do universo Marvel. Asgard sem o verdadeiro Odin no trono, parece um personagem diferente, sem aquele ar magico e místico apresentado nos filmes anteriores.

Contando com quatro protagonistas, é nítido um equilíbrio entre eles no decorrer do filme, mesmo com Thor sendo o elo que une os eventos mostrados no filme, cada um dos personagens seguem seus próprios objetivos, todos brilham igualmente, em diversos momentos diferentes na verdade. Todo elenco conta com uma harmonia inexplicável em suas atuações, o que ajuda a deixar o público mais à vontade e confortável, enquanto se aventuram pelos últimos dias de Asgard.

Ah também a participação especial de Matt Damon, Sam Neil e Luke Hemsworth, contando através de uma cena teatral, os acontecimentos vistos no filme anterior como um sketch de comédia digno de um programa de humor de sábado a noite, rivalizando com Stan Lee, como o melhor alivio cômico do filme.

Apesar do ritmo acelerado porem bem distribuído pela minutagem disponível para contar sua história e com um teor mais leve, Thor: Ragnarok, consegue transmitir uma narrativa coesa, construída de forma eficiente para fechar a trilogia com chave de ouro, inspirada em diversos arcos renomados do personagem, apesar de ressaltar a importância de Kirby e Simonson, é visível a influência de outros autores que passaram pelo personagem em seus 55 anos de existência, como o atual roteirista da revista do Homem de aço, Dan Jurgens, que ao longo de seus seis anos no comando do Asgardiano, trouxe o memorável arco “Reigning” a luz do dia, onde é mostrado o amadurecimento de Thor até a sua relutante chegada ao trono.

Seguido por Michael Avon Oeming que mostrou a queda de Asgard na saga Ragnarok, como parte do elogiado arco “Vingadores: A Queda”, ou então com o escritor J.M. Straczynski, que trouxe um Thor confiante e digno de todo o seu poder reconstruindo Asgard na Terra após o Ragnarok no arco “O Renascer dos Deuses”, além de reimaginar o que o Deus da Trapaça viria a se tornar anos mais tarde, com uma personalidade mais marcante e ambígua. Também vale a pena exaltar o atual roteirista das revistas do Deus Do Trovão, Jason Aaron, com uma narrativa inovadora, elogiada pelo público e crítica, tanto em sua fase com o filho de Odin quanto com a mais recente portadora do martelo magico, Mjolnir.

Uma coisa interessante e que vale a pena ser comentada é que apesar dos diversos trailers exibidos nas últimas semanas, para não estragar a experiência do público, as cenas mostradas foram completamente alteradas e contaram com elementos que alteram totalmente a perspectiva de quem assiste.

Thor: Ragnarok, se mantem como um filme solo e fecha a trilogia do Deus Do Trovão com chave de ouro de forma satisfatória, como uma continuação direta de Vingadores: Era de Ultron, a presença do Hulk é equilibrada e significativa para o personagem, apesar do humor um tanto quanto exagerado, faz sentido e funciona pelo que o diretor pretendia passar.

Definitivamente uma aventura que merece ser conferida direto das telonas com um balde de pipoca na mão e M&Ms na outra, pois é exatamente essa sensação agridoce que você vai sentir ao sair dos cinemas após as duas cenas pós-créditos.

Hyader Oliveira

Estudante de Jornalismo e criador do Blog "Tocah Do Coruja", viciado em escrever sobre quadrinhos, cinema e desenhos animados. Por ser um aficionado por esse universo fantástico desde antes de aprender a ler e escrever, sempre quis saber mais sobre meus heróis favoritos garimpando de blog em blog informações e conceitos relacionados a esse universo.